Onde está Deus?
Está bebendo da poça de água
que escorreu do bueiro de uma esquina qualquer?
Está fazendo loucos remendos com uma imunda colher
em suas vestes de retalhos com precisão cirúrgica?
Está largado com restos de pães sujos no concreto
e o olhar petrificado no pó dançante ao sopro rasteiro do vento?
Está maravilhado ou sem pensamentos
vislumbrando o destino de tornar-se o pó de suas criações?
De tudo virar pó?
De a vida ser uma dança de fragmentos?
Onde a existência se despedaça numa forma qualquer de nada?
A cada minuto, segundo, milésimo, partícula, quark, instante?
Onde nenhuma violência, fome, dor e desamparo poderiam existir?
Onde uma partícula de poeira seria uma tênue morada
sem fachadas, muros e cercas elétricas?
Onde poderia ser rodopiado pelo o vento e ser vislumbrado
pelo o olhar intenso e maravilhado de um mendigo bebedor de bueiros?
E Deus sempre esteve nisso tudo?
Onde ele esteve enquanto se perguntava?
Apalpando o tornozelo de barro seco imaginando ser uma constelação de pó?

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